Airplanes, escrita por Vinícius Camargo.

Obs: É uma fic que eu escrevi contando o que aconteceu com Clear até a morte do Alex, que ficou meio sem explicações na transição do primeiro para o segundo filme.

Eu tentei.

E se você tentar roubar tudo isso e postar no Nyah, eu vou ficar sabendo.

    As folhas secas rolavam sem destino pelo quintal. O pôr-do-sol já havia acabado há alguns minutos, mas Clear Rivers continuava sentada no balanço antigo.
         Daquela vez, ela não tinha se preocupado com a ferrugem. Ela não tinha se preocupado com o ranger das bases metálicas, e sentiu se vitoriosa por conseguir fazer isso. Ela não tinha planejado passar à tarde no balanço, ela não tinha planejado ficar no quintal aquela tarde, e aquele senso, aquela noção de controle próprio a deixou feliz. Ela sabia que poderia guiar a vida dela daquele jeito, por que até aquele momento, a morte não tinha voltado.
         Fazia exatamente três meses que Carter Horton tinha sido esmagado por um sinal de neon, numa rua do subúrbio encantadoramente assustador de Paris. Fazia exatamente três meses que a morte tinha saído do pé dela e de Alex Browning, e ainda, Clear conseguia se lembrar de tudo.
         Só ela pudera ver o ônibus que deveria ter atingido Alex. Só ela tinha acompanhado Carter empurrar Alex para fora do caminho do letreiro. Só ela tinha acompanhado cada um dos cabos de aço que seguravam o letreiro se rompendo e por fim, só ela tinha visto o letreiro do Le Café Miro atingir Carter em cheio, o derrubando no chão e por fim, o reduzindo a uma massa escura e viscosa no pavimento.
         Não que ela gostasse de manter todas aquelas memórias. Não que ela achasse que todas aquelas imagens de um passado frio pudessem, de alguma maneira, indicar a ela o caminho certo. Não haviam sinais no passado, haviam apenas corpos enterrados a sete palmos abaixo do chão. Ou corpos que tinham sido fragmentados numa explosão a duzentos metros acima dela.
         Clear também não acreditava que pudesse voltar no tempo. Ela sabia que não era capaz, e se tivesse a chance, ela sabia que não a usaria. Ela tinha visto o que acontecera com pessoas que, de alguma maneira, foram incluídas num plano de voltar ao tempo e se salvaram, mas por poucos dias. Ou até meses.
         O vento soprou mais uma vez e os cabelos escuros que tombavam sobre seu rosto marcante balançaram no lugar por alguns milésimos de segundo e se juntaram no mesmo canto. Clear ainda mantinha a mesma expressão perigosa no rosto. Seus olhos escuros ainda rolavam paranóicos em suas órbitas. Ela ainda sustentava os movimentos frígidos e erráticos, distraídos por algo que nunca fora visto, ou que nunca tinha acontecido. Seu corpo continuava torneado, e ela não sentia mais nenhum tipo de necessidade de usar roupas escuras. ''As cores escuras lutam contra a insegurança do seu sex appeal'', Alex dissera, num dos momentos em que conseguiram se divertir, naqueles últimos três meses.
         Naquele momento nostálgico, Clear se lembrou de Alex. Não que ela estivesse mantendo ele longe de seus pensamentos. Após todos aqueles meses, Alex continuava aquela mesma interrogação para ela, talvez apenas um pouco mais moldada.
         Desde que desembarcara do avião, em território americano, Alex tinha se trancado em sua casa. Preso, em um mundo em que poderia compartilhar apenas com Clear e com seus pais. Não com psicólogos, não com terapeutas, apenas com a garota estranha de sua classe.
         Alex não sentia a mesma segurança que Clear, ela sabia disso. Clear tinha voltado a dirigir, tinha saído de casa, tinha apenas ignorado o fato de que ela e Alex ainda pudessem estar no jogo. E tinha dado certo para ela. A morte não tinha jogado nenhuma carta, e Clear continuou com sua vida monótona, com sua existência caótica enquanto Alex continuou fazendo a conta em sua própria mente, trancado em casa.
         No entanto, aquilo mudaria. O fato de que a escuridão invisível não tinha dado as caras, tinha ajudado Clear a convencer Alex a sair de casa, pelo menos naquela noite. Eles iriam dar uma volta, talvez duas pelo quarteirão e então ambos voltariam para suas casas.
         Eles estavam namorando, de fato, mas ainda era estranho para Clear esperar a mãe de Alex abrir a porta da casa dele para ela. Às vezes ela tinha flashbacks de quando seus poucos namorados a levavam para a casa, e aquilo era desconfortante ao mesmo tempo. Não que os pais de Clear iriam aparecer e lançar olhares furtivos a seus namorados, afinal, eles não estavam por ali mais. Não que ela teve muitos namorados. Era questão de tradição.

         ***

         Clear parou em frente ao espelho. Ela estava usando uma jaqueta escura e uma calça jeans branca. Clear sempre tinha gostado de usar roupas de cores neutras, ela não queria parecer uma palhaça colorida que nem a...
         Clear balançou a cabeça, evitando o pensamento. Aquela noite precisava dar certo. A questão era evitar o ''inevitável''?
         E mais uma vez, Clear começou a se lembrar da realidade alternativa. Quando criança, Clear fantasiava que o reflexo dela no espelho não era nada além de sua própria versão em um mundo melhor. Que a Clear do outro lado morava com os pais e tinha uma vida de comercial de margarina. Ela chegava da escola e beijava seus pais. Ela iria em direção a cozinha, seguida por sua mãe que iria fazer um lanche para ela. Então, ela veria seu pai saindo para o trabalho e o beijaria de novo. Então, ela passaria o resto da tarde na casa das amiguinhas e voltaria para a casa antes do anoitecer. A Clear do outro lado jantaria e deitaria com sua mãe, no sofá, enroladas num cobertor quentinho com cheiro da Pensilvânia e dormiria, esperando pelo pai.
         E pela primeira vez, Clear começou a analisar melhor essa realidade alternativa. E se todos chegassem bem a Paris. Todos iriam andar juntos pelas ruas, seguidos a gritos pela Valerie Lewton e todos iriam passear por museus fantásticos, lugares fantásticos que só Paris tinha a oferecer. E então, quando a viagem acabasse, todos voltariam para a casa a tempo de jantar com as próprias famílias. Talvez Alex, Tod Waggner e Billy Hitchcook entrassem na faculdade. Talvez Valerie ficasse em Mt. Abraham e casasse com Roberto Gonzáles, um professor de literatura espanhola com que Clear sabia que Valerie estava a fim. Talvez Carter continuasse com Terry Chaney e meses depois ela aparecesse grávida. E dez meses depois, Terry aparecesse grávida de novo. E Clear iria embora para Nova Yorque e deixaria tudo e todos para trás. E Clear nunca conheceria Alex da maneira com que conhecia.
         Naquele momento, Clear admitiu, se fosse real, ela gostaria de estar do outro lado do espelho, vivendo a realidade alternativa. Com uma única diferença, o voo 180 não tinha explodido em plena decolagem. Se ela pudesse mudar tudo...
         Clear suspirou fundo e alisou sua jaqueta. Ela olhou pela janela de vidro quatro quadrinhos e percebeu que a chuva tinha parado. Ela tinha ouvido as gotas de chuva quando entrara na casa. E naquele momento, aproveitando a trégua, Clear saiu de casa em direção a casa de Alex.

***

         A noite estava fria, Clear percebeu logo. Por alguns segundos, ela imaginou-se andando de blusinha, quase congelada. E seria ridiculamente trágico ela morrer congelada, após tudo. Ela riu por alguns outros segundos.
         Ao virar a esquina para a rua de Alex, Clear sorriu. Alex estava de pé, no portão de sua casa. Esperando por ela. Clear sorriu e se apressou.
         ''Acho que o comum é o cara ir buscar a dama, não é?'' Alex perguntou rindo, assim que ela se aproximou.
         ''É o que eu tô fazendo, '' Clear respondeu rindo e o beijando.
         Alex retribuiu. Clear se divertiu por mais alguns segundos.
         ''Então, '' Alex disse quebrando o beijo, ''para onde vamos?''
         ''Eu pensei em ir dar uma volta pelo centro, '' Clear brincou.
         ''Hmm. Por mim tá ótimo, '' Alex respondeu.
         ''Sério?'' Clear recuou surpresa e lançou-lhe um olhar duvidoso. ''Se você acha...''
         ''Claro que eu acho, Clear.'' Alex se inclinou e a beijou de novo. ''Podemos aproveitar melhor, longe dos meus pais...''
         Clear sorriu. ''Desculpa quebrar o momento, mas meu maior medo não é os seus pais descobrirem que o filho de dezenove anos não é virgem. ''
         ''Shhh, '' Alex disse, colocando o dedo na boca de Clear. ''Você prometeu que não iríamos falar disso''.
         Clear balançou a cabeça. ''Tudo bem. É só tomarmos cuidado.''
         Enquanto andavam pelas calçadas suburbanas, Clear ainda estava surpresa em como Alex estava calmo. Em como Alex parecia vivo de novo. Naquele momento, Clear jurou que iria fazer o que fosse preciso para continuar dando voltas com ele. Aquele momento era único, mesmo que se repetissem todos os dias.
         Alex ainda olhava para os lados cauteloso, mas muito menos como que Clear imaginara.
         ''Eu quero aproveitar muito esse momento com você, '' ele disse, a beijando de novo.
         ''Claro '' Clear disse. ''Mas, por quê? Ainda iremos viver noites como essa '' ela disse rápido.
         ''Por nada, '' Alex disse. ''Afinal, é a primeira vez que eu tô saindo, depois de tudo. ''
         ''Entendo. '' Clear respondeu.

***
        
         A noite passava em segundos, e por uma vez, Clear havia se esquecido de tudo. De tudo que poderia dar errado. De todas as vezes que ela imaginou que quando Alex saísse de casa ele pudesse ser morto. De todos os medos que ela tinha forçado a reprimir pelos últimos meses. E ela estava ali, do lado de Alex, andando sem destino algum. Por um momento exageradamente clichê, ela acreditou que pudesse ficar ali, com ele, o resto da vida. Por toda a eternidade.
         ''Hora de irmos, não é?'' Clear perguntou, ainda encarando Alex.
         ''Achei que você iria querer aproveitar o resto da noite, '' Alex disse com um sorriso perigoso.
         ''Eu até gostaria, '' Clear respondeu. ''Mas eu acho melhor voltarmos.''
         Alex a beijou novamente. ''Tudo bem. ''
         Clear olhou para o céu, enganchada em Alex. O céu estava estrelado, mas escuro. Clear se perguntou se os céus das noites de março eram assim, sinistros. Ela evitou a palavra, mas não conseguiu pensar em outra coisa que pudesse encaixar no momento. Maravilhosamente sinistro. E também se lembrou da noite em que ambos sentaram na beira de uma praia próxima de Nova Jersey e ficaram olhando as estrelas.
         Alex guiava Clear, e contínuas vezes, ambos enroscavam os pés e riam. Alex entrou em um beco claro e que passava pelo fundo de inúmeros prédios, um horizonte.
         ''Não é perigoso?'' Clear perguntou, engolindo em seco.
         ''Relaxa, eu pego esse atalho para voltar desde que era criança, '' Alex respondeu.
         Clear concordou. Sim, Alex não tinha se esquecido de como era a cidade, pelo menos. E no momento mais       nostálgico de todos, em meio ao beco iluminado pelas estrelas, Clear sentiu o arrepio em suas costas. Era o arrepio da morte, ela sabia disso. E ela não teve tempo algum de avisar a Alex.
         ''Eu já te disse como você tá bonita?'' Alex perguntara.
         Então, as coisas aconteceram numa sequência tão rápida que Clear mal pode acompanhar com os olhos.
         Clear sentiu os respingos de sangue tocar seu rosto. Clear ouviu o som do esmagamento, um barulho horrível, molhado e oco, que ficaria em sua mente para sempre.
         Algo acertara a cabeça de Alex Browning e se espalhava em pedaços ao redor. Na mente de Clear ocorreu, era um tijolo. Como uma súplica, os braços de Alex se chocaram no ar quando ele impactou com o chão de joelhos. Clear percebeu o amassado horrível no topo da cabeça de Alex. Ela podia ver o couro cabeludo afundado em pedaços de um tijolo, cercado por pedaços de pele finos e abertos, e que se rasgavam ao tocar nos estilhaços do crânio que a mente de Clear pode distinguir por ser branco em meio a um entrelaço de vermelho e preto molhado. O corpo de Alex pendeu incerto para frente e para trás num milésimo de segundo e escolheu. Para frente.
         Clear percebeu que estava gritando enquanto os braços de Alex tocaram o chão, seguidos pelo tronco, peito e finalmente a cabeça. Clear também guardou o momento em que a cabeça de Alex tocou o chão num baque, espirrando sangue pelo pavimento do beco.
         Alex estava morto. Ela olhou para cima, descrente, levando as mãos nos cabelos num ato desesperado. Ela observou que estavam abaixo de um prédio antigo. Era um tijolo jogado pela morte. Ela se ajoelhou no chão e sentia um incômodo em sua audição, mas não se preocupou. Ela se inclinou até conseguir enxergar o rosto de Alex, mas não pode, por que o rosto do Alex estava literalmente enterrado no concreto. Ela se levantou e percebeu que o incômodo em sua audição eram os seus próprios gritos, congelados no espaço. Um grito que parecia não acabar mais.
         Clear não conseguiu pensar em nada nos segundos que se sucederam, mas ela ainda gritava. Logo ela ouviu passos a cercando, falando coisas ininteligíveis, murmúrios pesados que não trariam Alex de volta. Nada traria Alex de volta, isso era o fato e só ela saberia o quanto aquilo poderia doer. Alex estava morto e a culpa também era dela.
         Num ato de loucura comparada ao momento, Clear tentou se lembrar da última expressão que pudera conseguir registrar do pobre Browning. Era uma expressão de dúvida e alegria, essa mesma expressão horrível e bela que estaria estampada no rosto dele eternamente, mesmo que não houvesse outra eternidade. 
         As pessoas do local falavam com ela, mas ela ainda gritava. Ela sentiu as mãos de alguém a tocando, ela não se importava mais. E com outro êxtase de descrença, ela olhou para o prédio acima dela.
         Ela poderia jurar que viu uma sombra negra sumir para o interior do maldito prédio velho. Era a própria morte, não haveria dúvidas mais. A própria que esperou três malditos meses para pegá-lo. Naquele momento, Clear desejou que pudesse ter fechado o cinto naquele maldito voo 180 e ficado em silêncio, em seu assento, sem se manifestar, e ecoar em sua mente que Alex era um pirado. E acompanhado o grupo se afastar, enquanto imaginava o que faria assim que chegasse a Paris. Em outro momento rápido de aceitação, Clear desejara que a morte não tivesse esperado tanto tempo, e matasse Alex e ela um pouco antes, para que ela não se apegasse tanto a ele. E ainda, olhando para o alto do prédio, ela esquivou o olhar para a noite e ele estava lá.
         Um avião estava cruzando o céu. Tantos aviões cruzam o céu em tantos momentos, por que aquilo tinha que ser com o voo 180?  A dúvida sumiu de sua mente assim que ela percebeu o quanto irônico o momento tinha sido. Um avião...
         E ela sabia o quanto ela estava ferrada.

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